Nota sobre os objetivos e a arquitetura do “Seminário 10 anos Depois”, organizado pelo GRAP em janeiro de 2010.
“10 ANOS DEPOIS: DESAFIOS E PROPOSTAS PARA UM OUTRO MUNDO POSSÍVEL”
O Fórum Social Mundial completou, em janeiro de 2010, dez anos de existência e o Grupo de Reflexão e Apoio ao Processo FSM, formado por ativistas brasileiros identificados com o Fórum desde sua formação, promoveu um seminário cujo propósito central foi prospectar os desafios que se colocam, daqui para frente, para o processo que animamos. Este Seminário esteve inserido no Fórum Social Dez Anos – Grande Porto Alegre, que ocorreu na mesma data em Porto Alegre e cidades vizinhas.
Ao longo da última década, o FSM, como iniciativa de aglutinação, mobilização e articulação da sociedade civil global, contribuiu para mudar a paisagem política do mundo. O FSM nasceu na contraposição ao Fórum Econômico Mundial, realizado a cada ano em Davos, na Suíça, que se organiza na mesma data. Ele teve um papel central para que se quebrasse o “pensamento único” e fosse ampliado o diálogo dentro do então nascente movimento altermundialista, oferecendo um espaço único de troca de experiências, construção de campanhas e debate de alternativas.
Mas o mundo se alterou muito desde o 1º FSM, em janeiro de 2001. Guerras de dominação foram travadas, em especial no Oriente Médio, gerando novos movimentos de libertação; o balanço de forças entre as potências hegemônicas e a geopolítica global foram profundamente alterados; a economia capitalista, que em 2001 conhecia uma breve recessão, recuperou-se nos anos seguintes e se expandiu fortemente, para mergulhar novamente em uma nova crise em 2008, agora muito mais intensa e profunda; as desigualdades sociais e internacionais se ampliaram; o cenário latino-americano foi transformado com a eleição de governos identificados, em maior ou menor grau, com movimentos populares; as crises energética e alimentar eclodiram, afetando bilhões de pessoas; a crise ambiental se agravou enormemente, em especial pelo aquecimento global, a ponto de se reconhecer que ela ameaça a continuidade da civilização tal como a conhecemos. Vivemos, pois, em um momento histórico muito distinto daquele que viu nascer o Fórum. Entramos em um período que alguns têm caracterizado como de convergência de crises e outros de crise de civilização.
O FSM foi, ao longo desta década, se modificando, sem perder sua identidade original – a de um espaço de auto-organização das entidades e movimentos da sociedade civil que se colocam o objetivo de lutar por outro mundo, em que as mazelas da globalização neoliberal sejam superadas. Ele saiu de Porto Alegre para realizar-se em lugares de diferentes continentes (Mumbai, Caracas, Bamako, Karachi, Nairóbi) e voltar, em janeiro de 2009, ao Brasil, realizando-se em Belém, na Amazônia. Passou a se realizar não apenas como evento mundial, mas também através de fóruns continentais, nacionais e locais, transformando-se em um processo de crescente articulação entre as organizações da sociedade civil do mundo. Fóruns temáticos foram igualmente organizados em diversas partes do planeta. O FSM enriqueceu-se, ao longo desta trajetória, com a experiência de distintos atores sociais e políticos, incorporando, por onde passava, novas temáticas e reflexões, sem perder seu pluralismo. Foi sendo assim construída de forma colaborativa uma agenda política que consideramos vigorosa, inovadora e indispensável para enfrentar os dilemas de civilização do mundo em que vivemos.
O Seminário “10 anos depois: desafios e propostas para um outro mundo possível” teve por objetivo central examinar os novos desafios com os quais nos confrontamos e projetar caminhos futuros que o FSM poderá percorrer, na desafiadora conjuntura global que se abre. Mas quis também realizar uma reflexão mais sistemática sobre o que fomos capazes de realizar até aqui, nossos erros e acertos, nossa dinâmica institucional. Foi, neste sentido, um seminário de reflexão estratégica dirigido para os ativistas mais envolvidos no processo FSM.
Para isso, o Seminário foi organizado em torno de quatro conjuntos de reflexões centrais, nas plenárias e sessões da manhã, ao lado de algumas atividades complementares pela tarde e da integração mais ampla com o Fórum Social Dez Anos Grande Porto Alegre, nascido do diálogo com a sociedade civil gaúcha e com o apoio de diversos governos municipais da capital e da região metropolitana de Porto Alegre.
Tivemos, no primeiro dia do Seminário, 25 de janeiro, uma plenária de recuperação dos aspectos centrais do processo FSM e de avaliação de suas conquistas e limites como espaço aberto, como ator político e como instituição. Tratou-se, neste primeiro dia, de posicionar o conjunto dos participantes do Seminário sobre o ponto onde estamos hoje – a partir da ótica dos distintos protagonistas do processo. Consideramos que uma plenária centralizada foi a melhor forma de tratarmos esta questão e a mesa abrangente que propusemos deveria permitir que seus participantes estabeleçam um diálogo franco entre eles. Aspectos mais internos ao processo FSM (como metodologia, comunicação, expansão e finanças) foram, nesta arquitetura, tratados depois em reuniões especificas com os participantes envolvidos nestas temáticas.
O segundo dia, 26 de janeiro, foidedicado a traçar um diagnóstico da conjuntura no seu sentido mais amplo, da avaliação do que se passa hoje com o planeta e a humanidade e os grandes desafios de civilização (tanto no sentido de crise como de oportunidades) colocados para todos nós nesta quadra histórica. Optamos, neste sentido, por realizar quatro mesas paralelas, para aprofundar estes diagnósticos: sobre a conjuntura ambiental, a econômica, a político e a social.
Estes diagnósticos estabelecerem as bases para recuperarmos e debatermos de forma mais aprofundada, nos dois dias seguintes, 27 e 28 de janeiro, elementos da nova agenda política que os atores do processo FSM foram, como organizações, ressaltando ao longo dos últimos eventos do processo: bens comuns, sustentabilidade, economia e gratuidade, bem viver, organização do poder político, direitos e responsabilidades coletivas, o novo ordenamento mundial e como construir hegemonia política. Para isso, as manhãs do terceiro e do quarto dia também foram organizadas ao redor de quatro mesas simultâneas, permitindo que aprofundássemos a discussão de oito temas que avaliamos decisivos. É uma agenda abrangente, mas não exaustiva; outras temáticas serão, sem dúvida, objeto de atividades no Fórum Social Dez Anos Grande Porto Alegre.
Para as doze discussões das manhãs dias 26, 27 e 28 de janeiro, optamos por antecipar e tornar mais abrangente e inclusivo possível o processo de discussão através do blog, em que uma provocação inicial do debate, sintética, foi colocada para cada mesa. Ela visou tanto reações imediatas dos demais participantes das mesas como recolher subsídios para o Seminário de todos os interessados. As mesas sobre a conjuntura e a agenda em janeiro foram, neste sentido, o ponto de chegada de um diálogo e um processo de reflexão que queremos que seja o mais amplo possível.
Uma comissão de sistematização atuou ativamente nos quatro primeiros dias do seminário – estando presente em todas as mesas e plenárias – para apresentar uma sistematização das grandes questões levantadas e do que for considerado contribuição relevante para o processo Fórum Social Mundial na manhã do quinto dia.
Buscamos também, fora do período matutino reservado para a estrutura formal do Seminário, organizar outras atividades, sendo uma delas sobre a relação entre movimentos sociais, partidos e governos, uma mesa de diálogo e controvérsias que aprofundasse os debates entre movimentos e chefes de estado que se colocam no campo do FSM.
O convite a um grupo significativo de lideranças do processo Fórum foi possível graças ao apoio dos governos municipais do Estado brasileiro do Rio Grande do Sul, onde ocorrerá o Fórum Social Dez Anos Grande Porto Alegre. Solicitamos também que nossos convidados disponibilizem pelo menos mais um período, em sua agenda, para participar de outra atividade – auto-organizada – no marco deste Fórum.
O seminário foi uma atividade simultaneamente retrospectiva, comemorativa e prospectiva, uma reflexão principalmente sobre nosso futuro. Pretendeu recolher os debates dos comitês organizadores dos Fóruns que poderiam trazer suas reflexões e propostas sobre o processo para serem debatidas conjuntamente, enriquecidas e depois inseridas nas instâncias do FSM, colaborando para a definição dos novos rumos que o processo FSM poderá percorrer.
Foi também uma aposta na vitalidade do processo no próximo período, devendo estimular e impulsionar o Fórum Social Mundial 2010, que se desdobrará em um calendário de várias atividades ao longo do ano, entre elas o Fórum Temático “Crise de civilização”; o Fórum Social dos EUA, em Detroit; o Fórum Social Europeu, em Istambul; o Fórum Social Temático sobre Educação, na Palestina; e o próprio Fórum Social Mundial 2011, que ocorrerá, como evento centralizado, na África, em janeiro de 2011. Porto Alegre Dez Anos foi uma oportunidade de estabelecer um nexo de continuidade ao longo deste processo, acumulando propostas e reflexões, estimulando e subsidiando estes eventos como um processo contínuo.
O Escritório do GRAP, que pode ser acessada através do email: contato@grap.org.br está disponível para esclarecer quaisquer dúvidas.
GRAP – Grupo de Reflexão e Apoio ao Processo Fórum Social Mundial
TEXTOS DO SEMINÁRIO
Todos os textos relacionados ao Seminário e aqui divulgados encontram-se na pasta “Seminário 10 anos depois”, em “tópicos de interesse”.
CERTIFICADO
Os participantes do “Seminário Internacional 10 anos depois” podem abrir e imprimir aqui seu certificado, bastando clicar no link abaixo e preencher o espaço indicado com seu nome.












quisiera saber si publican version en español, muchas gracias
Acredito que, uma das ações que o Fórum deve fazer/seus organziadores, no caso/ é possibilitar que quem não leia inglês ou francês possa acessar os textos em seus idiomas, até para poder se manifestar/participar, senão estará/estaremos sendo EXCLUÍDOS das informações e debates nos idiomas (inglês). A luta por outro mundo possível passa também em nos livrarmos, melhor, ampliarmos as formas de linguagem para além do idioma hegemonico e dominante. Nos obriga a pensar e raciocinar na linguagem deles!!!
Peço, por favor, pelo menos em português (até porquê é aqui no Brasil que está se realizando está parte do Fórum) e espanhol (o qual certamente, será grande parte de participantes, dos países próximos ao RGS).
Um Abração,
Carlos RS Machado.